Ter sido sempre assim não é motivo pra continuar

É inegável que a discussão de justiça de gênero tem evoluído em nossa sociedade. Na medida em que essa discussão evolui, e mais mulheres estão no mercado de trabalho exigindo os seus direitos e oportunidades, novos desafios aparecem. As estruturas precisam se reacomodar quando esse tipo de processo acontece, então acho importante dizer que esse caminho não é simples e passa muito por aprendermos a lidar com menos certezas e mais conflitos. E quando digo aprendermos, falo com todas as pessoas, pois a promoção de uma sociedade justa é responsabilidade de todas as pessoas.

Nos últimos (quase) três anos tenho aprendido muito sobre essa trajetória dentro do ambiente organizacional, na ThoughtWorks Brasil. Pra quem não conhece, a ThoughtWorks é uma consultoria global de desenvolvimento de software customizado, presente no mercado há mais de 20 anos e no Brasil há nove. A empresa tem três pilares sobre os quais se baseia — importante falar disso e vocês verão por quê — , que são sustentabilidade financeira, excelência tecnológica (revolucionar o ecossistema de TI) e justiça social e econômica.

Todas as nossas ações sempre devem se equilibrar nesses três pilares, e com a diversidade não é diferente. Muita gente acha que só nos importamos com a diversidade por causa da perspectiva de justiça social e econômica. Estamos em uma época na qual a sociedade vive uma crise tamanha de identidade e de valores e há pessoas que começam a relegar importantes decisões e, principalmente, esperanças, à tecnologia. Nesse contexto, é impensável falarmos de excelência tecnológica sem falar de diversidade. Porque times diversos trazem mais pontos de vista para a mesa, refletem mais a sociedade como um todo (que no fim é a usuária final de software) e porque se não temos pontos de vista e lugares sociais diversos representados em um time de desenvolvimento de software, corremos um grande risco de desenvolver algoritmos que reproduzam as coisas como elas são (o famoso status quo), ou seja, comportamentos racistas e machistas, por exemplo. Logo, levamos sim a promoção da diversidade e de um ambiente justo de trabalho muito a sério para o coração do nosso negócio.

E, por isso, hoje vim compartilhar algumas reflexões e aprendizados desse caminho.

<texto da imagem: “Não se pode mudar aquilo em que não se acredita”. ao fundo, várias pessoas da ThoughtWorks em ação do Instituto ID_BR na ThoughtWorks Belo Horizonte, em 2017>
  • “Não se pode mudar aquilo em que não se acredita”

Li esse provérbio no mural do quarto da minha grande amiga-irmã de infância, Mariana Nemer, e custei a entender o seu real significado. Meu pai falava isso em outros termos durante minhas crises de adolescência: ter consciência de um problema é o primeiro passo para mudá-lo. Logo, até onde nos entendemos como pessoas que também reproduzem o machismo, simplesmente por sermos parte de uma sociedade patriarcal e termos bebido dessa fonte — ou sofrido suas rasteiras — muito mais do que gostaríamos na vida?

Importante: não se diz que mulheres são machistas, nós reproduzimos o machismo, uma vez que o aprendemos como forma de vida. Da mesma maneira, não dizemos que pessoas negras podem ser racistas, mas sim que podem reproduzir os padrões de opressão racistas aprendidos. Precisamos aceitar que vivemos num país profundamente marcado pelo patriarcado e pela escravidão, para entender que isso está em nossa história, em nossa estrutura. Ao não aceitarmos a realidade de opressões que vivemos e ao não nos vermos como reprodutoras de opressões, dificultamos bastante o processo de transformação social.

  • Precisamos entender nossas estruturas

Ainda sobre o ponto anterior: se não entendermos a nossa história, como país, demoraremos ainda mais a entender a profundidade e extensão do problema. No caso, o Brasil é um país com herança escravocrata e patriarcal.

“Na história da formação da sociedade brasileira, especialmente no período da colonização do Brasil, o modelo de família que se formou foi o modelopatriarcal.

O modelo patriarcal, como o próprio nome indica, caracteriza-se por ter como figura central o patriarca, ou seja, o “pai”, que é simultaneamente chefe do clã (dos parentes com laços de sangue) e administrador de toda a extensão econômica e de toda influência social que a família exerce.”

fonte: http://brasilescola.uol.com.br/historiab/familia-patriarcal-no-brasil.htm

Isso significa, inclusive, que a mulher construiu sua identidade sempre em relação ao homem, não como sujeito independente (e prometo compartilhar mais referências sobre esse assunto em breve).

  • Qual é o nosso lugar de falar?

Considerando a boa definição da Djamila Ribeiro em seu livro “O que é lugar de fala?”, creio que um bom exercício para todas nós é começar a entender qual é o nosso lugar de fala, como locus social. O meu é o lugar de uma mulher branca heterossexual cisgênero de classe média. Isso significa que eu posso entender o que é ser oprimida como uma mulher no mundo do trabalho, mas jamais entenderei o que é ser oprimida como uma mulher trans, uma mulher negra, uma mulher homossexual ou bissexual ou uma mulher pobre. Por mais que eu me esforce para me colocar em seus sapatos e ver o mundo sob seu ponto de vista, por mais que eu me entristeça e me indigne com as opressões que as manas sofrem, eu nunca saberei o que é ser naquela pele, naquele lugar. Isso não me impede de falar a favor da diversidade racial ou contra a transfobia, por exemplo. Mas me faz ter que redobrar a atenção ao fazê-lo e, principalmente, redobrar a minha atenção ao exercer a minha branquitude na sociedade, pois com certeza já oprimi muitas pessoas em minha trajetória, mesmo sem querer ou saber. Preciso olhar para a minha branquitude e a minha condição de cisgênero e entender o que significa ser quem sou em nossa sociedade.

  • Representatividade

Se ainda temos dúvidas sobre as reais condições de diversidade no mercado de trabalho, vale olharmos para o censo da população brasileira de 2010 e nos perguntar onde estão as 54% de pessoas negras e as 51.4% de mulheres da população brasileira no mercado formal de trabalho. Estão incluídas? Se sim, estão bem distribuídas nas hierarquias das empresas? Simplificando bastante, quantas mulheres e quantas pessoas negras estão em cargos de liderança das grandes empresas brasileiras? Porque será que isso acontece?

<texto da imagem: o quanto o nosso conteúdo se comunica com a maior parte da população brasileira? ao fundo, várias pessoas da ThoughtWorks em ação do Instituto ID_BR na ThoughtWorks Belo Horizonte, em 2017>
  • O quanto o conteúdo e as comunicações produzidas por cada empresa se comunicam de fato com a população brasileira, considerando a sua representatividade?

Falando em representatividade, quando falamos com o mercado, quando falamos com potenciais candidatas a trabalharem em alguma empresa, estamos de fato nos comunicando com todas as pessoas? Nossas comunicações trazem fotos de pessoas “bem sucedidas” que não sejam só brancas, que não sejam só homens, que não sejam só pessoas cisgênero? As histórias que contamos de produtos, de cultura organizacional e de clientes incluem as pessoas e buscam representar a diversidade existente na sociedade? Quem vocês chamam para dar uma palestra ou produzir um artigo em nome da empresa? Na ThoughtWorks, tivemos um processo interessante em nossas comunicações. Falávamos de nossas vagas assim:

“Buscamos desenvolvedores”

Aí começamos a falar assim:

“Buscamos desenvolvedoras/es”

Nas redes sociais isso gerou bastante elogios, mas, internamente, junto com os elogios vieram novas provocações: estávamos, ainda, falando apenas com quem se identifica como homem ou mulher. Então, começamos a pesquisar formas de sermos neutras de gênero em nossa linguagem. Nossas vagas hoje são divulgadas como:

“Buscamos pessoas desenvolvedoras”

E a Paula Ribas, editora de conteúdo na ThoughtWorks, produziu um textofalando mais sobre isso, para que outras pessoas entendam que quando falamos “todas” estamos nos referindo a todas as pessoas, não apenas às mulheres.

<texto da imagem: “ter sido sempre assim não é motivo pra continuar”. ao fundo, várias pessoas da ThoughtWorks em ação do Instituto ID_BR na ThoughtWorks Belo Horizonte, em 2017>
  • Ter sido sempre assim não é motivo pra continuar…

Escrevi esse verso há muitos anos e ele me toca tanto que me gerou uma poesia e uma tatuagem alguns anos depois. Já repararam o quanto a mulher, no ambiente corporativo, é “educada” para não gostar, desconfiar e até mesmo minar o desenvolvimento profissional de outras mulheres? Já ouvi muitas frases em minha vida de consultora autônoma, como “mulher é tudo mimimi”, “trabalhar com mulheres é muito difícil”, “mulheres não se apóiam”. Eu ficava perguntando às mulheres que diziam isso se elas eram mimimi ou difíceis — ou, pelo menos, mais difíceis que um homem. Essa é a lógica de um universo corporativo que sempre foi dominado por homens e que provavelmente foi construindo essas historinhas para que as próprias mulheres se sentissem inseguras de estar em lugares de poder e desconfiadas quando outras mulheres estão. Hoje posso dizer com muito orgulho que trabalho majoritariamente com mulheres (a equipe de liderança estratégica da ThoughtWorks Brasil tem 60% de mulheres e a equipe de marketing é composta por 100% de mulheres hoje) e vejo como é forte e engrandecedor quando praticamos a sororidade e nos vemos com um olhar de potência, de carinho e generosidade. Vejo muitos potenciais despontarem, em mim e na equipe que trabalha comigo, vejo colaborações lindas e, principalmente, vejo um negócio que cresce de tamanho no Brasil (em faturamento e número de pessoas) ano após ano. Logo, vamos olhar para as histórias que se contam e questionar: elas fazem mesmo sentido? O que você alimenta no mundo quando repete que “mulheres são difíceis”?

  • Como se adaptar a uma época de transição, com mais questionamentos que certezas?

O exemplo acima é apenas um dos espaços onde devemos praticar a diversidade. E, considerando que esse é um caminho longo e para toda a vida, é necessário entender que estamos em um momento de transição na sociedade, em que preciso ter mais questionamentos que certezas sobre narrativas tidas como verdades absolutas, ao mesmo tempo em que não posso me omitir de situações que considero injustas. Pra muita coisa não há resposta certa, mas pra muitas há um posicionamento a se tomar. E, para os que não têm resposta, mas geram incômodo e exclusão, é preciso estarmos atentas e abertas para construirmos juntas uma solução melhor de narrativa social. Lembrando que uma narrativa social se constrói a todo momento: ao compartilharmos uma mensagem num grupo de whatsapp ou um post no facebook, ao formarmos uma equipe, ao darmos um feedback… Narrativa social não é só a escrita num livro de história ou sociologia. E me preocupa bastante qual narrativa social se constrói quando se pensa que não se está construindo nada — como se fosse possível ser neutra nessa sociedade.

  • Precisamos estar abertas para nos transformar…

Para isso tudo, precisamos estar muito abertas para nos transformar. Questionar paradigmas e revisitar crenças, inclusive a de que podemos aguentar tanta injustiça pois o mundo não vai mudar mesmo. Realmente, se não agirmos para isso, demoraremos ainda mais para vermos mudanças na forma como a sociedade lida com opressões e classes dominantes.

  • “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo” (José Saramago)

Voltando ao ponto inicial, de como as opressões estão incutidas na história do Brasil, ou seja, são estruturantes de nossa história, precisamos lembrar que o caminho para transformação é longo. Precisamos seguir com parceiras e parceiros, homens e mulheres, em casa e no trabalho. Vemos pequenos avanços de um lado, mas isso gera reações de outro. Na minha leitura dessa frase do Saramago, para esse caso específico, é não ter pressa no sentido de não nos desesperançarmos com a lentidão da mudança, mas, jamais, deixarmos de aceitar que essas mudanças são sim urgentes. E é por serem lentas e urgentes que devemos seguir firmes, sem perder tempo.

Vamos cuidar umas das outras, praticar a sororidade. Vamos cuidar de nós mesmas. Uma sociedade mais justa precisa de nós, mulheres, fortes (e isso não significa não sermos vulneráveis), firmes, conectadas, sendo generosas com a gente e com as outras. E uma sociedade mais justa precisa de pessoas parceiras, homens parceiros, lideranças parceiras. Abertas ao diálogo, entendendo que o conflito faz parte do processo e que tudo bem não saber o caminho: só não podemos desistir de construí-lo.

#resistênciaesororidade #compromissoeatitude

identidades e descontinuidades (breve reflexão sobre um nascimento)

escrever, escrever, escrever. versos para me entender. versos para tornar a vida menos árida. ou tornar a aridez compreensível e palatável. até degustável.

compartilhar, quando já não parecia caber só em mim.
primeiro, um compartilhamento meio escondido, quieto. como se fosse possível gritar sussurrando. gritar sussurrando dentro de um armário.
então, sussurros entre amigas. sussurros que ecoam e reverberam.
na reverberação, um outro sentido. versos para nos entender, versos onde outras também se veem e se entendem.

como num bom processo de descoberta interior, as dúvidas. em abundância. será? será?
será.

de repente, um livro.
sendo que nada é de repente. um livro não é diferente. o primeiro livro, menos ainda. como um bom processo de nascimento, é necessário rearranjar o que já está para que caiba algo mais. dentro de mim, inclusive. é preciso me rearranjar. entender o que me apavora para enfrentar (não sem antes pensar seriamente em fugir).
não fosse a reverberação. e as amigas companheiras, que não me deixam desviar daquela mirada.
amigas materializam sonhos, que é pra eu lembrar do que já é. do que não se pode fugir.

de repente, um livro. que, logo ao nascer, me mostra que por mais que se eternizem palavras, não se eternizam identidades. as várias que vivem aqui comigo. e por mais que se solidifiquem pontos de vista, eles não me resumem. não serão os últimos: versos, arranjos, pontos de vista, identidades. ao materializar um pouco de mim, se atiça a urgência de poder ser outra. de meus pontos de vista poderem ser refrescados e refrescáveis. esquecíveis. reconstruídos. nascidos de novo.

no dia do meu aniversário de trinta e três anos me ligaram da gráfica anunciando que meu livro estava pronto. agora, no dia oito de março, lancei esse livro no mundo, entre amigas e amigos, pessoas companheiras de caminhada. eu, com o corpo quente, peito arfante e sentimentos espevitados, me apaziguei ao chegar lá. nas melhores companhias possíveis, o descontinuidades está na rua.

e eu, agradecida que só, transbordando o amor que recebi de tante gente querida. viva!

<para mais fotos desse dia lindo: https://www.facebook.com/miradapoetica/posts/1691060674306586>

sete por cento

sete por cento. você faz parte dos sete por cento da população que o resto da população odeia. feministas. as feministas vitimistas. você é a minoria. disse o dono daquele timbre de voz alto, rasgante, chatíssimo, repetitivo. ele se repetiu por horas e horas, entre você tem razão e você está errada, eu falo e você comenta, qual a sua formação para falar isso? não existe racismo nem patriarcado, falar de machismo é demais, por favor. e sim, como empresário posso contratar quem eu quiser, inclusive mais homens do que mulheres, depois que as últimas mulheres que contratei resolveram engravidar, de propósito. de propósito, e isso está documentado, entendeu? mas se eu tiver um negro e um branco na minha frente, contrato o melhor, entendeu? não faço distinção. não há racismo. e não vivemos numa sociedade escravocrata. qual a bibliografia que diz que somos uma sociedade patricarcal e escravocrata? você estava lá pra dizer? ela não tem dados, não tem argumentos, não tem formação, por isso foge da discussão, ele continuou, na minha frente, sem, no entanto olhar pra mim, nem me deixar falar, nem me ouvir enquanto eu insistia em falar. ela é louca. agora, o homem, que nasceu homem, quer obrigar outro cara a chamá-lo de XYZ. ninguém é obrigado a chamar ninguém de outro nome, se ele nasceu homem tem que ser chamado por aquele nome. você não entende, não tem formação pra isso, não tem dados. e vem com vitimismo. louca. concluiu, brilhantemente.

então que me incendeie.

#metaconversa sofrida na semana do #diainternacionaldamulher

não precisamos ser pequenas para que outras pessoas possam ser grandes

Recebi o email da série “How we’ll win”, feita pela Quartz, sobre equidade de gênero, e recomendo muito a entrevista com Pramila Jayapal.  Ela é indiana e a primeira asiática-americana a ter um lugar no Congresso estadunidense. Em uma época em que ainda enfrentamos muitas disparidades de gênero na sociedade (principalmente contra as pessoas que fazem parte dos chamados grupos interseccionais, como mulheres negras, mulheres trans, mulheres homossexuais, mulheres pobres, mulheres com deficiência) e que isso pode ser usado de forma agressiva ou sutil para desqualificar o trabalho de uma mulher <haja visto os ataques que a professora Jacqueline Muniz, especialista em segurança pública pela UFF, recebeu após sua aparição na Globo News>, é sempre importante lembrar ao mundo a importância de se falar de feminismo e sempre importante lembrar às mulheres que, apesar de muitas vezes a sociedade querer dizer o contrário, “nós não precisamos ser pequenas para que outras pessoas possam ser grandes” (tradução livre da entrevista).

Abaixo alguns trechos que me marcaram e no link a entrevista completa.

“My big idea is that democracy can only work properly if you have truly representative people at the table.”

“I think that when you’re doing hard work, especially surrounding civil and immigrant rights, these are things that if they were easy, they would be already done. This is a long game, and you have to believe in your core that you can make progress.”

“a great place to start would be equal pay, period. Women earn between 54 and 80 cents for every dollar earned by men.”

“I was going through a really difficult time in my life, and I had a therapist who said something to me that I’ll never forget, and I continue to tell other people: “You don’t have to be small in order for somebody else to be big.” I think this is particularly important, especially for a lot of women and young women, who sometimes fear their own power. We should realize that we can actually exhibit all of that power. And if somebody is intimidated by it, then let them be intimidated by it.”

E, numa nota super pessoal, adorei a mensagem que ela ressaltou que gostaria de ter acreditado antes em sua carreira:

“I wish I had believed something I saw on a t-shirt recently: “Not all those who wander are lost.””

Com a minha trajetória profissional super diversa, levei um tempo até entender que tudo estava conectado e que tudo bem vagar por aí traçando o próprio caminho. De certa forma, meu pai me disse isso logo que decidi sair do meu primeiro emprego para trabalhar com negócios sociais e minhocas:

“Minha filha, seu avô já dizia, é melhor andar à toa do que ficar à toa”.

a quem interessa a não-ideologia?

(imagem: @coutinholaerte @laertegenial )

não tá fácil, muito menos para as populações que serão diretamente atacadas por essa “intervenção”.

por que é tão difícil aprender com o que já foi? como falar de sociedade da abundância, de futuros maravilhosos se, como sociedade, seguimos sapateando nas pessoas mais fracas, reforçando a narrativa do mundo “fora de controle”…

aí mesmo é que precisamos resistir. refletir. agir. a quem interessa a crença de sermos inviáveis como grupo social? a quem interessa a crença de que não se pode acreditar em nenhum político, só nos “não-políticos” (como se isso existisse)?
a própria ideia de não se gostar de política é uma ideologia. não há fuga ideológica, não há fuga de crenças. estamos todas em alguma(s). há possibilidade de escolha de qual crença e ideologia praticar, de qual mundo construir, mesmo quando nos sentimos tão fracas, tão pequenas.

na minha crença, esse ainda é melhor que o mundo que construímos quando nos ausentamos dessa construção coletiva.

que seja por palavras, que seja por manifestarmos nossas opiniões, que seja por não desistirmos de acreditar mesmo quando taxadas de loucas, que seja por escolhermos nos manter sãs pra seguir na luta mesmo quando parece difícil respirar, que seja não silenciando diante do inaceitável.

sigamos. de preferência, desobedientes. e questionadoras.

(obs.: esse texto está no feminino pois concorda com “pessoas”, e não porque se direciona apenas a mulheres >>> para saber mais sobre linguagem neutra de gênero, leia esse texto)

Sobre justiça de gênero

No último dia 30 de março participei de um painel sobre justiça de gênero na EDP São Paulo, empresa de energia de origem portuguesa. O painel aconteceu na quarta edição do evento Sustainability Talks, organizado para o público interno da empresa e, nesse mês, foi dedicado à equidade de gênero no ambiente de trabalho. No painel estávamos eu, a Adriana Carvalho, da ONU Mulheres, a Daniela Cachich, VP de Marketing da Pepsico, Guilherme Valadares, fundador e Diretor de Conteúdo do Papo de Homem e Miguel Setas, CEO da EDP, e a facilitação foi feita pela Fernanda Pires, Diretora de Gestão de Pessoas da EDP.

 

O que eu gostei MUITO:

 

  • discussão com pontos de vistas diversos e muito conteúdo – a conversa rendeu, pôde ser aprofundada e passamos do horário previsto 🙂
  • audiência bem mista, com muitos homens também – sim, muitas vezes eventos sobre gênero atraem quase só mulheres,
  • ver a preocupação genuína do Miguel Setas em promover essa discussão e mais, essa transformação, na cultura da empresa,
  • o ponto de vista de que o machismo não mata só mulheres, também mata homens. Logo, conversas sobre temas complexos nunca são tão simples como parece.

 

Esse ponto de vista foi bem construído no documentário Precisamos falar com os homens, produzido pela ONU Mulheres, Papo de Homem e outras parceiras fodas e confesso que me abriu outras perspectivas sobre como os homens são impactados pelo machismo. Eu costumava dizer que o machismo pode impactar homens negativamente, mas mata mulheres. E, de acordo com alguns cientistas sociais e antropólogos do filme, ele também mata homens – por toda a gama de comportamentos e atitudes esperados “do homem” na sociedade patriarcal.

 

Cada conversa dessas é mais um passo de construção coletiva de novas narrativas de sociedade. Uma sociedade que caiba homens e mulheres, em todos os espectros, sendo quem querem ser e respeitando as pessoas. Uma sociedade diversa e justa. Não sei exatamente qual é o caminho ou como é a chegada (se soubéssemos e não tivéssemos chegado ainda seríamos muito incompetentes, né?!), só que é preciso continuar e escolher boas companhias para a jornada – que é longa – de transformar padrões coletivos construídos ao longo de milhares de anos. Se você conhece projetos interessantes que estão construindo narrativas de uma sociedade justa e diversa, compartilha aqui nos comentários ou me manda um email. Vou adorar conhecer. 🙂

 

Pelas 99% | O oito de março e a greve das mulheres

Após a Marcha das Mulheres* nos Estados Unidos, um grupo de feministas fuderosas (aka Angela Davis, ) publicaram um manifesto no The Guardian (publicado em português no blog da Boitempo), chamando para uma greve mundial das mulheres no próximo dia oito de março.

Particularmente, gostei MUITO do chamado e da abordagem.

“Para além do “faça acontecer”: por um feminismo dos 99% e uma greve internacional militante em 8 de março”

O ‘faça acontecer’ é o lema do livro da Sheryl Sandberg (Lean In), que convoca as mulheres a construírem suas carreiras e a se empoderarem. Confesso que não li esse livro, então não posso emitir opiniões mais sólidas. O que penso, em uma abordagem bem inicial, é que a inclusão das mulheres na sociedade patriarcal em que vivemos não é uma questão de “faça acontecer”ou, só das mulheres quererem. Individualizar problemas sociais é uma excelente forma de minimizar, abafar e desqualificar a existência do problema que atinge um coletivo. Para a grande maioria das mulheres, não é questão de querer ou de fazer acontecer. A questão para as 99% das mulheres é mais embaixo: as estruturas da sociedade foram desenhadas para a exclusão sistemática dessas mulheres de uma sociedade de direitos. As estruturas da sociedade patriarcal foram desenhadas para a exploração dessas mulheres – de seus corpos, suas sexualidades e do seu trabalho (como me ensinou a Larissa Costa, jornalista do Brasil de Fato e estudiosa do tema Capitalismo e Patriarcado).

Logo, se queremos falar de justiça de gênero, temos que falar de justiça para 99% das mulheres cujos direitos e oportunidades são sistematicamente negados. É desumano e perverso esperar que essas mulheres, que são a maioria da população mundial, tenham que tratar a luta por seus direitos básicos como algo individual, como uma luta a ser travada só.

Essa luta, como maravilhosamente bem colocado pelas autoras do manifesto, também não é uma luta apenas pelo feminismo de quem já tem direitos e oportunidades minimamente garantidos pela sociedade.

“Sua perspectiva informa a nossa determinação de opormo-nos aos ataques institucionais, políticos, culturais e econômicos contra mulheres muçulmanas e migrantes, contra as mulheres de cor e as mulheres trabalhadoras e desempregadas, contra mulheres lésbicas, gênero não-binário e trans-mulheres.

As marchas de mulheres de 21 de janeiro mostraram que nos Estados Unidos também um novo movimento feminista pode estar em construção. É importante não perder impulso. Juntemo-nos em 8 de março para fazer greves, atos, marchas e protestos. Usemos a ocasião deste dia internacional de ação para acertar as contas com o feminismo do ‘faça acontecer’ e construir em seu lugar um feminismo para os 99%, um feminismo de base, anticapitalista; um feminismo solidário com as trabalhadoras, suas famílias e aliados em todo o mundo.”

Essa é uma luta de todas as pessoas que se importam com uma sociedade justa. Inclusive – e porque não, principalmente – das pessoas privilegiadas** por esse sistema.

No Brasil, vários movimentos de mulheres estão se unindo para organizar o dia 08 de Março. Acompanhe pela #ParadaBrasileiradeMulheres ou por essa página no Facebook.

Algumas sugestões de participação estão sendo compartilhadas online, entre elas:

“Convocamos as mulheres brasileiras a aderir a Parada Internacional das Mulheres no dia 8 de março de 2017. A Parada Internacional de Mulheres é um movimento formado por mulheres de partes diferentes do mundo. Foi inspirado na Polônia e na Argentina e criado nas últimas semanas de outubro de 2016 por mulheres de vários países como resposta a atual violência social, legal, política, moral e verbal experimentada pelas mulheres atuais em diversas latitudes.

COMO VAMOS PARAR?

Sugerimos diversas formas de protestar no dia 8 de março
💡Parada total, no trabalho ou nas tarefas domésticas e nos papeis sociais como cuidadoras durante a jornada completa.
💡Parada de tempo parcial da produção/trabalho por uma ou duas horas
💡Apitaço no horário do almoço ( convide as colegas para as 12:30 ou no horário possível do seu local de trabalho para realizar um apitaço).
💡Caso não possa parar em seu trabalho: use elementos roxos na vestimenta, como fitas ou qualquer elemento que decida usar.
💡Coloquem panos roxos nos carros e nas casas.
💡Boicote locais misóginos
💡Não compre nada neste dia
💡Bloqueie caminho e ruas
💡Participem e organizem manifestações, piquetes e marchas nas suas cidades
💡Instale mensagem automática de “fora do escritório” no email e explique o porquê
💡Participe do twitaço as 12:30 do dia 8 de março #8m #8mbrasil #paradabrasileirademulheres #euparo
💡Grave vídeos de toda a intervenção que fizerem no 8 de março com a hastangs
#8m #8mbrasil #paradabrasileirademulheres #euparo
💡Convide outras mulheres e organizem formas criativas de adesão a Parada Brasileira de Mulheres
💡Mude a foto de perfil https://twibbon.com/support/parada-de-mulheres-8m-br ”


*Vale assistir/ler o discurso da Angela Davis na Marcha das Mulheres:

“Esta é uma Marcha das Mulheres e ela representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. E um feminismo inclusivo e interseccional que convoca todos nós a resistência contra o racismo, a islamofobia, ao anti-semitismo, a misoginia e a exploração capitalista.”

**Eu me reconheço como parte do 1% das mulheres: privilegiada, uma mulher branca, nascida em família de classe média alta, com uma estrutura familiar de apoio, afeto e segurança, pude morar fora do Brasil, estudar outra língua – pude até me dar ao luxo de empreender enquanto ainda morava com meu pai.

 

 

 

Sobre o ano que passou e o que vem por aí

2016 não passou desapercebido pra ninguém. Foi um ano intenso: política, social e profissionalmente. No Brasil, teve golpe, no Reino (des)Unido, Brexit, nos Estados Unidos, Trump. No trabalho, Austrália, Equador, Inglaterra, India, time crescendo, muitos aprendizados e os famosos cinco anos em um que bem me avisaram antes de eu entrar na ThoughtWorks. No vendaval de emoções, deixei de escrever por aqui. 

 

Agora, passada a época de promessas de ano novo, posso dizer que continuo querendo postar mais. Pra isso, sei que precisarei ser menos perfeccionista, o que também é um bom desafio de ano novo.

 

Enquanto o meteoro não chega, seguimos na luta e trocando ideias sobre o novo mundo que vamos parir (que merece mais atenção do que esse mundo infame em que vivemos).

“Vivemos num mundo infame, eu diria.
Não é muito confortante, mas é isso.
Um mundo mal nascido.
Mas existe outro mundo na barriga deste.
Esperando.
Que é um mundo diferente.
Diferente e de parto complicado.
Não é fácil, o nascimento.
Mas com certeza pulsa no mundo que estamos.
Um mundo que pode ser pulsando no mundo que é.
Me perguntam: o que vai acontecer? E depois?
Eu respondo: nada.
Nada.
Não sei o que vai acontecer.
E tampouco me importa o que vai acontecer.
Me importa o que está acontecendo.
Me importa o tempo que é.
Há um outro mundo que nos espera.
Esse mundo de merda está grávido de um outro mundo.”

Eduardo Galeano, 24/5/2011, Praça de Catalunya – Espanha

 

Respeite as mina tudo 

Ontem estava em uma loja, vi essa blusa e quis muito! 

Peguei por engano três tamanhos diferentes e fui ao provador. Chegando lá, deixei dois tamanhos do lado de fora e levei um para dentro da cabine para experimentar. Escolhi a primeira cabine, bem perto da entrada e enquanto experimentava ouvia as conversas do lado de fora. Alguns segundos depois que entrei ouvi duas mulheres conversando  sobre as blusas que deixei do lado de fora. 

“Respeite as mina, as mona, as mana. . .”,  leu uma delas pausadamente. “Isso deve ser coisa de lésbica, né ? ” , completou a mesma que leu a frase. “Ah é , coisa de sapatão. . . ” , respondeu a outra. “Coisa de gay” , concluíram. 

Eu, ouvindo tudo de dentro da cabine, tive o ímpeto de sair para conversar com as duas moças, mas percebi que precisava terminar de me vestir antes. E quando saí já não pude identificar quem eram. 

As mina, as mona e as mana, independente de serem mulheres lésbicas ou mulheres trans, são mulheres. Todas merecem respeito e a luta pelo respeito a todas as mulheres é de todas e todos nós. Não é coisa de gay ou de sapatão. Assim como a luta pelos direitos de todos os grupos minorizados, que não é responsabilidade apenas das pessoas que tem seus direito oprimidos. 

Respeite as mina, as mona, as mana. Respeito é pra geral.