Todos os posts de Natália Menhem

A Biblioteca

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Antes de saber o que era aquele prédio, ele já nos chamou atenção pelas paredes vermelhas com textura. Mais tarde, no free walking tour que fizemos, descobrimos que o prédio abriga a Biblioteca Nacional da Eslovênia e foi projetado pelo arquiteto nascido em Ljubljana Jože Plečnik, cujos trabalhos estão muito presentes na arquitetura da cidade. Plečnik projetou as paredes externas como se fossem um grande e enrugado tapete. Do lado de dentro, projetou uma experiência que reflete a experiência do conhecimento: as pessoas que frequentam a Biblioteca passam pela escuridão da ignorância (na entrada), se esforçam para o conhecimento (subindo uma escadaria) e são iluminadas quando o “alcançam” (no salão principal de livros e de áreas de estudo, rodeado de janelas em seu pé direito alto). Segundo nos disseram, Plečnik acreditava que o caminho do conhecimento não é uma jornada fácil para quem o leva a sério e exige bastante dedicação.

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A cidade e o poeta

O que dizer de uma cidade que tem em sua praça central uma estátua de um poeta? É o que acontece em Ljubljana, onde a estátua de Preseren, o maior poeta da Eslovênia, ocupa a praça central, a mesma da Igreja Rosa, em frente à ponte tripla. Sobre o poeta, uma imagem de uma mulher seminua, representando uma musa inspiradora.

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Preseren escreveu sobre amor e escreveu sobre a Eslovênia. Em um país que demorou a ser reconhecido como tal e onde, por muito tempo, a própria língua não podia ser falada, o seu uso se fez ainda mais importante na construção de uma identidade coletiva.

Assim, além da escultura em local privilegiado do poeta, a cidade comemora, no dia 8 de fevereiro, o Dia de Preseren, ou o Dia da Cultura, quando as pessoas vão até a Praça para ler poesias do poeta (lembrando que nessa época as temperaturas em Ljubljana chegam a ser negativas).

Sim, parece um sonho. Achei lindo. E uma ideia a se espalhar. O dia da poesia. Mais poetas que militares homenageados.

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Precisamos falar sobre a cultura de estupro [Ainda sem nome]

Na última sexta-feira tive a chance de participar de um podcast para falar sobre cultura de estupro. Chegar até lá foi uma grande e feliz coincidência: participo de um grupo chamado Vigilia Feminista e a Maira, que também participa do grupo, disse no grupo mineiro da oportunidade de participarmos desse podcast de um professor dela da PUC Minas, o Caio, e o grupo estava em busca de voluntárias. Me disponibilizei e ao conversar com o Caio, ele me explicou que o foco do podcast era falar de comunicação digital, tópico bem familiar ao podcast do meu irmão. Perguntei ao Caio qual era o nome do podcast e ele disse que se chamava Ainda sem nome –  sim, o mesmo podcast do Felipe, meu irmão. 🙂

Foi uma experiência bacana e, diante dos acontecimentos recentes, fica cada dia mais clara a importância de falarmos e refalarmos, enquanto for necessário, sobre os temas que nos são importantes e sobre as mudanças que queremos e precisamos fazer para uma sociedade mais justa.

Hoje, tomando café numa pousada e conversando com o dono, um senhor de mais de setenta anos, ele criticou o machismo, contando que na certidão de nascimento de sua avó, que nasceu na segunda metade do século dezenove, dizia de seus bisavós: o bisavô, de nome tal, profissão tal e residente na sua propriedade, a bisavó, de nome tal, afazeres caracteristicos de seu sexo (!!!!)  e residente na propriedade do marido. Concordamos, Felipe, Carol, Bruno e eu, com a crítica ao machismo,  ao que o senhor diz que a culpa do machismo é das mulheres, que criam filhos e filhas machistas. 😮

Sim, precisamos falar sobre machismo.

Quem quiser ouvir o podcast, está nesse link aqui: http://www.aindasemno.me/93/.

#estupronuncamais [dia2]

Nossa luta é longa e vai continuar. Contra a cultura de estupro que não está só no estupro, mas em todos os pequenos abusos e violências que nós, mulheres, sofremos no dia a dia. Uma cantada na rua, um comentário maldoso sobre uma mina em rodas de amigos, o questionamento de “que roupa ela estava vestindo” ou de “mas ela estava sozinha?”, um agarro não permitido pela garota que o cara estava ficando, qualquer pensamento ou menção sobre uma mulher “merecer ou não merecer” ser estuprada. Todos esses atos fazem parte de uma cultura de estupro. O adesivo para carros feito com a presidenta eleita, a recepção de Alexandre Frota no Ministério da Educação, o abusivo PL5069, de Eduardo Cunha, que retira os direitos das vítimas de estupro. Todos esses atos constituem a cultura de estupro. E é a ela que dizemos o nosso NÃO. #machistasnãopassarão #estupronuncamais #vigiliafeminista #vigiliafeministaMG #abaixooPL5069

ps: vídeo produzido pelo coletivo de mulheres Vigília Feminista MG. esse foi o vídeo que fizemos hoje, no segundo dia da Vigília Feminista contra a cultura do estupro.

NÃO! #estupronuncamais


em tempos de violência transbordante
de direitos há muito agredidos
re-pe-ti-da-men-te

repetidamente
são os abusos
as opressões
os desrespeitos
que não já não podem mais ser silenciados.

quando um estuprador tem suas opiniões ouvidas
pelo pseudo-ministro da Educação
quando dezenas de homens estupram uma menina
– sim, uma MENINA de 16 anos –
e outras dezenas de homens estupram uma moça
– sim, uma moça chamada Democracia, de 31 anos –
muito se poderia dizer,
mas antes de tudo,
é preciso parar com tanto abuso.

NÃO!

um sonoro NÃO é o que dizemos aos criminosos desrespeitos
ainda tolerados – e naturalizados – nesta sociedade.
dizemos NÃO pois
NÃO toleramos
a intolerância e a omissão
em relação aos direitos
da mulher
sendo estuprados
pisoteados
atropelados
minuto após minuto.

NÃO!

#estupronuncamais

Sobre o preço – grande – das desigualdades

Nos textos El precio de la desigualdad, de Joseph E. Stiglitz e Será necessária uma desigualdade tão grande?, de Paul Krugman, a desigualdade socioeconômica estadunidense está em debate.

Stiglitz recorda estereótipos que ao longo das décadas definiram os Estados Unidos, como a terra de oportunidades ou grande sonho americano, onde há justiça e espaço para todos crescerem – só depende do seu esforço. Esse discurso fortalece bastante o ideal do “self-made man”, ou seja, a pessoa que construiu seu caminho de sucesso sozinha, exclusivamente por seus méritos. Stiglitz, no entanto, reforça que essa não é mais a realidade do país, que, se no pós-Guerra teve um crescimento muito mais forte e de forma distribuída, desde os (19)80 assumiu um crescimento divergente e excludente, beneficiando a muito poucos e deixando de prover igualdade de oportunidades. Um exemplo disso foram as reações pós-crise financeira de 2008, que beneficiaram Bancos e grandes empresários com medidas de crédito, mas não perdoaram dívidas estudantis, por exemplo, prejudicando a base da população. Além deste, Stiglitz ressalta outros mecanismos institucionais que fomentam o aumento da riqueza do 1% mais rico da população, aumento que não acontece de forma proporcional nem distribuída entre todos os segmentos da sociedade, alimentando, assim, a desigualdade extrema¹.

Krugman, de outro lado, enumera três modelos criadores da desigualdade extrema², para concluir que sim, há um pouco dos três modelos nas histórias de enriquecimento da sociedade estadunidense, mas, considerando que “resultados de mercado não são uma justificação moral”, a questão é se é possível redistribuir a receita que hoje atinge uma parcela extremamente pequena da população. Interessante notar que ambos trazem argumentos contra a meritocracia, deixando claro em vários aspectos as formas como o sistema político e econômico beneficia – ou prejudica – o enriquecimento de certas classes, como quem já nasce em uma certa condição social é beneficiado pela renda e educação de seus pais e como quem tem acesso a informações privilegiadas tem outras condições de enriquecimento. Dessa forma, abordam também o que é chamado por Bourdieu de capital cultural e capital social, influenciadores de oportunidades e condições de desenvolvimento que cada um tem na sociedade e que também invalidam o mito do “self-made man” e da meritocracia.

Assim como Stiglitz, Krugman aponta que a desigualdade não é benéfica para as sociedades, fazendo referência ao período de alto crescimento econômico dos Estados Unidos pós-Guerra, quando a desigualdade era muito menor. Krugman assume uma certa desigualdade como inevitável, negando veemente, porém, a necessidade de se haver desigualdade extrema. A solução proposta por ele para isso está no aumento da taxação de grandes riquezas em prol do fortalecimento da rede de segurança social, medida criticada pelos conservadores estadunidenses, os quais, segundo Krugman, também criticaram as medidas de Obama de aumentar a arrecadação entre os mais ricos e implementar a expansão do serviço público de saúde, e, no entanto, “Obama acabou presidindo o maior crescimento do emprego desde os anos 1990”.

No meu entendimento, a afirmação “a desigualdade é inevitável” se refere à desigualdade em um sistema capitalista, considerando as diferentes formas previstas de enriquecimento, mas o contraponto de que a desigualdade extrema não é necessária ressoa com a afirmação de Stiglitz de que o aumento da desigualdade não é inevitável. Além da questão econômica colocada, de que a desigualdade reduz a eficiência e o crescimento e de que países que buscam reduzir as desigualdades têm observado crescimento econômico e também um potencial inovador, há a questão moral, que me recordou Paulo Freire, que a coloca muito bem na Pedagogia da Autonomia, dizendo que o discurso neoliberal coloca as consequências de decisões econômicas como fatalidades, como se fosse impossível mudar esse rumo.

Em relação às desigualdades sociais no Brasil, acredito que em parte temos os mesmos problemas de concentração de capital em uma parte muito reduzida da população, e uma grande resistência dos setores dominantes à alta taxação das grandes riquezas, similar ao posicionamento conservador estadunidense trazido por Krugman. Além disso, ainda que os dados demonstrem a eficiência dos programas de transferência de renda, há um constante discurso nutrido pela mídia que vai contra tais programas e que se prontifica a escamotear os sistemas públicos de saúde e educação, o que para mim tem a ver com a criação de um cenário adequado para a privatização de fatias cada vez maiores de tais serviços. O mesmo também se aplica quando se fala de setores conservadores interessados em enxugar serviços básicos de segurança social, uma vez que a parcela mais rica da população praticamente não utiliza tais serviços. De outro lado, a maioria massiva da população brasileira depende desses serviços e qualquer enxugamento é uma contribuição a mais para acentuar a vulnerabilidade de sua condição socioeconômica, reduzindo  sua condição de ter acesso a oportunidades básicas de educação e emprego. No caso do Brasil, porém, a grande diferença é que a distância entre o segmento mais rico e o segmento mais pobre da população é abismal e ainda temos muitas pessoas vivendo na extrema pobreza.

¹”Si examinamos más de cerca la cima de la pirámide, encontraremos allí sobreabundancia de buscadores de rentas: hay quienes obtuvieron su riqueza ejerciendo el monopolio del poder; otros son directores ejecutivos que aprovecharon deficiencias de las estructuras de gobierno corporativas para quedarse con una cuota excesiva de la ganancia de las empresas, y hay todavía otros que usaron sus conexiones políticas para sacar partido de la generosidad del Estado, ya sea cobrándole demasiado por lo que compra (medicamentos) o pagándole demasiado poco por lo que vende (permisos para explotación de minerales). Asimismo, parte de la riqueza de los financieros proviene de la explotación de los pobres por medio de préstamos predatorios y prácticas abusivas con el uso de tarjetas de crédito. En estos casos, los que están arriba se enriquecen directamente de los bolsillos de los que están abajo.”

²Os três modelos citados por Krugman:

  1. Desigualdade originada pela produtividade

    “nós poderíamos ter uma enorme desigualdade porque os indivíduos variam imensamente em sua produtividade. (…) Este foi o ponto de vista expressado em um ensaio recente muito citado, do investidor de risco Paul Graham, e é popular no Vale do Silício –ou seja, entre pessoas que ganham centenas ou milhares de vezes mais do que os trabalhadores normais.”

  2. Desigualdade baseada na sorte

    “podemos ter uma economia em que aqueles que tiram a sorte grande não são necessariamente mais inteligentes ou mais trabalhadores do que os outros, mas só aconteceram de estar no lugar certo na hora certa”

  3. Desigualdade baseada no poder

    “executivos de grandes corporações que começam a definir a sua própria remuneração; financeiras que ficam ricas com informações privilegiadas ou cobrando taxas não merecidas de seus investidores ingênuos”

 

Será necessária uma desigualdade tão grande?

Este texto do Paul Krugman (Será necessária uma desigualdade tão grande?) também foi publicado no El País, e, como vejo colunas do Paul Krugman frequentemente em nossos canais de comunicação, resolvi pesquisar pelo mesmo artigo em português e o encontrei no Blog UOL. Ambos foram publicados em 15 de janeiro deste ano. Assim, ficarei mais atenta para os próximos, para poder compartilhar trechos dos textos em português, quando houver.

Paul Krugman é economista estadunidense e ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2008.

Trechos interessantes:

Quão ricos devem ser os ricos? Esta não é uma pergunta à toa. Pode-se dizer que a política norte-americana substancialmente gira em torno deste tema. Os liberais querem aumentar os impostos sobre as rendas mais altas e usar o arrecadado para fortalecer a rede de segurança social; os conservadores querem fazer o contrário, alegando que as políticas que taxam os ricos prejudicam todo mundo, pois reduzem os incentivos para se gerar riqueza.”

“Obama acabou presidindo o maior crescimento do emprego desde os anos 1990. Será que, ainda assim, haja algo a favor de uma grande desigualdade, no longo prazo? Não vai ser surpresa saber que muitos membros da elite econômica acreditam que sim. Tampouco será surpresa saber que eu discordo, que acredito que a economia pode florescer com muito menos concentração de renda e riqueza no topo. Mas por que eu acredito nisso?”

“A verdadeira questão, de qualquer forma, é se podemos redistribuir para outros fins algumas das receitas que atualmente vão para muito poucos da elite, sem prejudicar o progresso econômico”

“Não diga que a redistribuição é inerentemente errada. Mesmo que os rendimentos elevados refletissem perfeitamente a produtividade, resultados de mercado não são uma justificação moral.”

“Então, voltando à minha pergunta original: não, os ricos não precisam ser tão ricos quanto são. A desigualdade é inevitável; a grande desigualdade dos EUA de hoje, não.”

O preço da desigualdade

Bom, vamos à terceira leitura do Curso Internacional América Latina: Cidadania, Direitos e Igualdade. Continuarei compartilhando por aqui minhas notas de leitura e referências aos textos. O texto El precio de la desigualdad, de Joseph E. Stiglitz, também se encontra disponível online, publicado no El País, em 16 de junho de 2012. Joseph E. Stiglitz é economista estadunidense, e ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2001.

Trechos interessantes:

” ¿hasta qué punto las oportunidades que tendrá una persona a lo largo de su vida dependen de los ingresos y la educación de sus padres? En la actualidad, estas cifras muestran que el sueño americano es un mito.”

“Pero hoy la mayoría de los estadounidenses se encuentran peor (con menos ingresos reales ajustados por la inflación) que una década y media atrás, en 1997. Todos los beneficios del crecimiento fluyeron hacia la cima.”

“Los defensores de la desigualdad estadounidense argumentan que los pobres y los que están en el medio no tienen por qué quejarse: puede ser que la porción de torta con la que se están quedando sea menor que antes, pero gracias a los aportes de los ricos y superricos, la torta está creciendo tanto que en realidad el tamaño de la tajada es mayor. Pero una vez más los datos contradicen de plano este supuesto. De hecho, EE UU creció mucho más rápido durante las décadas que siguieron a la II Guerra Mundial, cuando el crecimiento era conjunto, que después de 1980, cuando comenzó a ser divergente. Esto no debería sorprender a quien comprenda cuál es el origen de la desigualdad. La búsqueda de rentas distorsiona la economía. Por supuesto que las fuerzas del mercado también influyen, pero los mercados dependen de la política, y en EE UU, con su sistema cuasicorrupto de financiación de campañas y el ir y venir de personas que un día ocupan un cargo público y al otro están en una empresa privada, y viceversa, la política depende del dinero.”

“Pero el aumento de la desigualdad no es inevitable. Hay economías de mercado a las que les está yendo mejor, tanto en términos de crecimiento del PIB como de elevación de los niveles de vida de la mayoría de sus ciudadanos. Algunas incluso están reduciendo las desigualdades. Estados Unidos paga un alto precio por seguir yendo en la otra dirección. La desigualdad reduce el crecimiento y la eficiencia. La falta de oportunidades implica que el activo más valioso con que cuenta la economía (su gente) no se emplea a pleno. Muchos de los que están en el fondo, o incluso en el medio, no pueden concretar todo su potencial, porque los ricos, que necesitan pocos servicios públicos y temen que un Gobierno fuerte redistribuya los ingresos, usan su influencia política para reducir impuestos y recortar el gasto público. Esto lleva a una subinversión en infraestructura, educación y tecnología, que frena los motores del crecimiento.”

“Estados Unidos se ha convertido en un país que en vez de “justicia para todos” ofrece favoritismo para los ricos y justicia para los que puedan pagársela: esto quedó demostrado durante la crisis de las ejecuciones hipotecarias, cuando los grandes bancos creyeron que, además de demasiado grandes para quebrar, eran demasiado grandes para hacerse responsables. Estados Unidos ya no puede considerarse la tierra de oportunidades que alguna vez fue. Pero no tenemos por qué resignarnos a esto: todavía no es demasiado tarde para restaurar el sueño americano.”

Não!

Um discurso perigoso ronda nossos tempos.
Esgueira-se pelos áridos ares de uma terra cansada,
de pessoas confusas pelo cansaço. (#cansadadeserenganada)

O mesmo discurso contém a mesma narrativa,
nas vozes de pessoas muito mais parecidas do que destoantes.

“Não é que eu quis que tivéssemos chegado aonde chegamos,
mas vamos concordar, é o que temos para hoje”.*

O discurso traz uma aceitação, quase forçada, da atual situação.
[Mesmo que seja uma situação inaceitável, desde muito tempo atrás:

“A fome frente a frente à abastança e o desemprego no mundo são imoralidades e não fatalidades como o reacionarismo apregoa com ares de quem sofre por nada poder fazer” (Paulo Freire)]

Ao mesmo tempo,
simplifica questões complexas
e individualiza problemas sistêmicos.

“Mãos à obra, vamos mudar!!!”*
(pois é fácil assim, só não mudamos até hoje porque não quisemos)

E além disso, é o discurso de vozes que se encontram numa posição confortável até que cheguem dias melhores.

“Portanto sem traumas, vamos buscar dias melhores”*

Como senão bastasse tudo isso, tudo isso, TUDO ISSO, nesses discursos se repetem táticas históricas de dominação e opressão.

“Desculpas mas não vou entrar no mérito, só gostaria de lembrar que…**” (ou seja, não vou entrar no mérito, mas você vai ouvir a minha opinião sobre o tema e ponto final, sem mais discussões!).

O mais curioso é que até agora só vi pessoas muito muito brancas, muito muito privilegiadas usando esse discurso. Porque no privilégio, a pressa é bem mais devagar. Fala-se de objetivos comuns, fala-se de “meu partido é meu país”, como se pudéssemos ignorar que algumas escolhas excluem outras, não há entrelinhas. Não há entrelinhas na falta de diversidade, na falta de representatividade, na omissão, na falta de direitos, na violência, muito menos naquela que se justifica

“quando a outra parte não está disposta ao consenso”.*

Porque a violência não se justifica. E no entanto, já somos tão violentadas/os. Na lama, nas urnas, nas Câmaras, nas propinas, na mídia, nos oligopólios, na merenda. E porque o consenso está longe de ser bom que nem para os lados oprimidos. Se o consenso é a única opção para não haver violência, a violência já está posta e não há debate.

Para nós, mulheres, não há tempo para esperar, nem mais um mês, nem mais um dia, sem fazer parte. Não é mais tempo de termos uma “representante do mundo feminino” no governo para fazer fita. Não é mais tempo de estarmos qualificando ninguém, nenhuma pessoa que seja, como “bela, recatada e do lar”. A população negra do Brasil não pode esperar nem mais um segundo para ter paz, para andar na rua sem medo de ser assassinada pela Polícia, para não ter suas oportunidades determinadas antes mesmo de nascer. Não há tempo, não há paz, não há respeito.

NÃO. Diremos não ao esforços de quem quer minimizar o golpe político que estamos vivendo. E diremos não com tranquilidade, pois não é de hoje que há um discurso tentando dizer que não há o que se fazer, enquanto o sistema continua sendo reproduzido para o benefício de muitos poucos.

“Pois é como algo natural ou quase natural que a ideologia neoliberal se esforça por nos fazer entender a globalização, e não como uma produção histórica. O discurso da globalização que fala em ética esconde, porém, que a sua é a ética do mercado e não a ética universal do ser humano, pela qual devemos lutar bravamente se optamos, na verdade, por um mundo de gente. O discurso da globalização astutamente oculta ou nela busca penumbra a reedição intensificada ao máximo, mesmo que modificada, da medonha malvadez com que o capitalismo aparece na história. O discurso ideológico da globalização procura disfarçar que ela vem reabastecendo a riqueza de uns poucos e verticalizando a pobreza e a miséria de milhões.” (Paulo Freire)

Diremos não a esse discurso, e diremos não repetidas vezes. Vamos repetir até que não seja mais possível ignorar. Porque é preciso se repetir muitas coisas óbvias até que se tornem verdade e uma delas é que uma sociedade justa é possível. É possível, mas têm sido obstruída até hoje pela manutenção de sistemas de dominação que herdamos de nossos colonizadores (e vai saber de quem eles herdaram). E sistemas de dominação são, em si, excludentes. Precisamos de novas narrativas para essa vida social justa, inclusiva e diversa. O discurso que se conforma com o contrário não nos representa e não há mais tempo para esperar.

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*Trechos retirados de discursos conformistas proliferados nas redes sociais sobre o golpe do Temer e de debates recentes sobre o movimento de estudantes secundaristas em São Paulo.
**Pra quem achou que essa frase não acaba bem, ela não acaba mesmo. Continua assim: “…dos 54 milhões de votos mais da metade foi do grupo que abraçou o processo de impthiment legitimamente constitucional e rito do supremo”. Exatamente assim.
***Os trechos citados de Paulo Freire são da Pedagogia da Autonomia.

Pedagogia da Autonomia: responsabilidade ética

“E é no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade. A ética se torna inevitável e sua transgressão possível é um desvalor, jamais uma virtude. (…)

Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo.

(…) O livro com que volto aos leitores é um decisivo não a esta ideologia que nos nega e amesquinha como gente”.

(Paulo Freira, Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa)