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Ter sido sempre assim não é motivo pra continuar

É inegável que a discussão de justiça de gênero tem evoluído em nossa sociedade. Na medida em que essa discussão evolui, e mais mulheres estão no mercado de trabalho exigindo os seus direitos e oportunidades, novos desafios aparecem. As estruturas precisam se reacomodar quando esse tipo de processo acontece, então acho importante dizer que esse caminho não é simples e passa muito por aprendermos a lidar com menos certezas e mais conflitos. E quando digo aprendermos, falo com todas as pessoas, pois a promoção de uma sociedade justa é responsabilidade de todas as pessoas.

Nos últimos (quase) três anos tenho aprendido muito sobre essa trajetória dentro do ambiente organizacional, na ThoughtWorks Brasil. Pra quem não conhece, a ThoughtWorks é uma consultoria global de desenvolvimento de software customizado, presente no mercado há mais de 20 anos e no Brasil há nove. A empresa tem três pilares sobre os quais se baseia — importante falar disso e vocês verão por quê — , que são sustentabilidade financeira, excelência tecnológica (revolucionar o ecossistema de TI) e justiça social e econômica.

Todas as nossas ações sempre devem se equilibrar nesses três pilares, e com a diversidade não é diferente. Muita gente acha que só nos importamos com a diversidade por causa da perspectiva de justiça social e econômica. Estamos em uma época na qual a sociedade vive uma crise tamanha de identidade e de valores e há pessoas que começam a relegar importantes decisões e, principalmente, esperanças, à tecnologia. Nesse contexto, é impensável falarmos de excelência tecnológica sem falar de diversidade. Porque times diversos trazem mais pontos de vista para a mesa, refletem mais a sociedade como um todo (que no fim é a usuária final de software) e porque se não temos pontos de vista e lugares sociais diversos representados em um time de desenvolvimento de software, corremos um grande risco de desenvolver algoritmos que reproduzam as coisas como elas são (o famoso status quo), ou seja, comportamentos racistas e machistas, por exemplo. Logo, levamos sim a promoção da diversidade e de um ambiente justo de trabalho muito a sério para o coração do nosso negócio.

E, por isso, hoje vim compartilhar algumas reflexões e aprendizados desse caminho.

<texto da imagem: “Não se pode mudar aquilo em que não se acredita”. ao fundo, várias pessoas da ThoughtWorks em ação do Instituto ID_BR na ThoughtWorks Belo Horizonte, em 2017>
  • “Não se pode mudar aquilo em que não se acredita”

Li esse provérbio no mural do quarto da minha grande amiga-irmã de infância, Mariana Nemer, e custei a entender o seu real significado. Meu pai falava isso em outros termos durante minhas crises de adolescência: ter consciência de um problema é o primeiro passo para mudá-lo. Logo, até onde nos entendemos como pessoas que também reproduzem o machismo, simplesmente por sermos parte de uma sociedade patriarcal e termos bebido dessa fonte — ou sofrido suas rasteiras — muito mais do que gostaríamos na vida?

Importante: não se diz que mulheres são machistas, nós reproduzimos o machismo, uma vez que o aprendemos como forma de vida. Da mesma maneira, não dizemos que pessoas negras podem ser racistas, mas sim que podem reproduzir os padrões de opressão racistas aprendidos. Precisamos aceitar que vivemos num país profundamente marcado pelo patriarcado e pela escravidão, para entender que isso está em nossa história, em nossa estrutura. Ao não aceitarmos a realidade de opressões que vivemos e ao não nos vermos como reprodutoras de opressões, dificultamos bastante o processo de transformação social.

  • Precisamos entender nossas estruturas

Ainda sobre o ponto anterior: se não entendermos a nossa história, como país, demoraremos ainda mais a entender a profundidade e extensão do problema. No caso, o Brasil é um país com herança escravocrata e patriarcal.

“Na história da formação da sociedade brasileira, especialmente no período da colonização do Brasil, o modelo de família que se formou foi o modelopatriarcal.

O modelo patriarcal, como o próprio nome indica, caracteriza-se por ter como figura central o patriarca, ou seja, o “pai”, que é simultaneamente chefe do clã (dos parentes com laços de sangue) e administrador de toda a extensão econômica e de toda influência social que a família exerce.”

fonte: http://brasilescola.uol.com.br/historiab/familia-patriarcal-no-brasil.htm

Isso significa, inclusive, que a mulher construiu sua identidade sempre em relação ao homem, não como sujeito independente (e prometo compartilhar mais referências sobre esse assunto em breve).

  • Qual é o nosso lugar de falar?

Considerando a boa definição da Djamila Ribeiro em seu livro “O que é lugar de fala?”, creio que um bom exercício para todas nós é começar a entender qual é o nosso lugar de fala, como locus social. O meu é o lugar de uma mulher branca heterossexual cisgênero de classe média. Isso significa que eu posso entender o que é ser oprimida como uma mulher no mundo do trabalho, mas jamais entenderei o que é ser oprimida como uma mulher trans, uma mulher negra, uma mulher homossexual ou bissexual ou uma mulher pobre. Por mais que eu me esforce para me colocar em seus sapatos e ver o mundo sob seu ponto de vista, por mais que eu me entristeça e me indigne com as opressões que as manas sofrem, eu nunca saberei o que é ser naquela pele, naquele lugar. Isso não me impede de falar a favor da diversidade racial ou contra a transfobia, por exemplo. Mas me faz ter que redobrar a atenção ao fazê-lo e, principalmente, redobrar a minha atenção ao exercer a minha branquitude na sociedade, pois com certeza já oprimi muitas pessoas em minha trajetória, mesmo sem querer ou saber. Preciso olhar para a minha branquitude e a minha condição de cisgênero e entender o que significa ser quem sou em nossa sociedade.

  • Representatividade

Se ainda temos dúvidas sobre as reais condições de diversidade no mercado de trabalho, vale olharmos para o censo da população brasileira de 2010 e nos perguntar onde estão as 54% de pessoas negras e as 51.4% de mulheres da população brasileira no mercado formal de trabalho. Estão incluídas? Se sim, estão bem distribuídas nas hierarquias das empresas? Simplificando bastante, quantas mulheres e quantas pessoas negras estão em cargos de liderança das grandes empresas brasileiras? Porque será que isso acontece?

<texto da imagem: o quanto o nosso conteúdo se comunica com a maior parte da população brasileira? ao fundo, várias pessoas da ThoughtWorks em ação do Instituto ID_BR na ThoughtWorks Belo Horizonte, em 2017>
  • O quanto o conteúdo e as comunicações produzidas por cada empresa se comunicam de fato com a população brasileira, considerando a sua representatividade?

Falando em representatividade, quando falamos com o mercado, quando falamos com potenciais candidatas a trabalharem em alguma empresa, estamos de fato nos comunicando com todas as pessoas? Nossas comunicações trazem fotos de pessoas “bem sucedidas” que não sejam só brancas, que não sejam só homens, que não sejam só pessoas cisgênero? As histórias que contamos de produtos, de cultura organizacional e de clientes incluem as pessoas e buscam representar a diversidade existente na sociedade? Quem vocês chamam para dar uma palestra ou produzir um artigo em nome da empresa? Na ThoughtWorks, tivemos um processo interessante em nossas comunicações. Falávamos de nossas vagas assim:

“Buscamos desenvolvedores”

Aí começamos a falar assim:

“Buscamos desenvolvedoras/es”

Nas redes sociais isso gerou bastante elogios, mas, internamente, junto com os elogios vieram novas provocações: estávamos, ainda, falando apenas com quem se identifica como homem ou mulher. Então, começamos a pesquisar formas de sermos neutras de gênero em nossa linguagem. Nossas vagas hoje são divulgadas como:

“Buscamos pessoas desenvolvedoras”

E a Paula Ribas, editora de conteúdo na ThoughtWorks, produziu um textofalando mais sobre isso, para que outras pessoas entendam que quando falamos “todas” estamos nos referindo a todas as pessoas, não apenas às mulheres.

<texto da imagem: “ter sido sempre assim não é motivo pra continuar”. ao fundo, várias pessoas da ThoughtWorks em ação do Instituto ID_BR na ThoughtWorks Belo Horizonte, em 2017>
  • Ter sido sempre assim não é motivo pra continuar…

Escrevi esse verso há muitos anos e ele me toca tanto que me gerou uma poesia e uma tatuagem alguns anos depois. Já repararam o quanto a mulher, no ambiente corporativo, é “educada” para não gostar, desconfiar e até mesmo minar o desenvolvimento profissional de outras mulheres? Já ouvi muitas frases em minha vida de consultora autônoma, como “mulher é tudo mimimi”, “trabalhar com mulheres é muito difícil”, “mulheres não se apóiam”. Eu ficava perguntando às mulheres que diziam isso se elas eram mimimi ou difíceis — ou, pelo menos, mais difíceis que um homem. Essa é a lógica de um universo corporativo que sempre foi dominado por homens e que provavelmente foi construindo essas historinhas para que as próprias mulheres se sentissem inseguras de estar em lugares de poder e desconfiadas quando outras mulheres estão. Hoje posso dizer com muito orgulho que trabalho majoritariamente com mulheres (a equipe de liderança estratégica da ThoughtWorks Brasil tem 60% de mulheres e a equipe de marketing é composta por 100% de mulheres hoje) e vejo como é forte e engrandecedor quando praticamos a sororidade e nos vemos com um olhar de potência, de carinho e generosidade. Vejo muitos potenciais despontarem, em mim e na equipe que trabalha comigo, vejo colaborações lindas e, principalmente, vejo um negócio que cresce de tamanho no Brasil (em faturamento e número de pessoas) ano após ano. Logo, vamos olhar para as histórias que se contam e questionar: elas fazem mesmo sentido? O que você alimenta no mundo quando repete que “mulheres são difíceis”?

  • Como se adaptar a uma época de transição, com mais questionamentos que certezas?

O exemplo acima é apenas um dos espaços onde devemos praticar a diversidade. E, considerando que esse é um caminho longo e para toda a vida, é necessário entender que estamos em um momento de transição na sociedade, em que preciso ter mais questionamentos que certezas sobre narrativas tidas como verdades absolutas, ao mesmo tempo em que não posso me omitir de situações que considero injustas. Pra muita coisa não há resposta certa, mas pra muitas há um posicionamento a se tomar. E, para os que não têm resposta, mas geram incômodo e exclusão, é preciso estarmos atentas e abertas para construirmos juntas uma solução melhor de narrativa social. Lembrando que uma narrativa social se constrói a todo momento: ao compartilharmos uma mensagem num grupo de whatsapp ou um post no facebook, ao formarmos uma equipe, ao darmos um feedback… Narrativa social não é só a escrita num livro de história ou sociologia. E me preocupa bastante qual narrativa social se constrói quando se pensa que não se está construindo nada — como se fosse possível ser neutra nessa sociedade.

  • Precisamos estar abertas para nos transformar…

Para isso tudo, precisamos estar muito abertas para nos transformar. Questionar paradigmas e revisitar crenças, inclusive a de que podemos aguentar tanta injustiça pois o mundo não vai mudar mesmo. Realmente, se não agirmos para isso, demoraremos ainda mais para vermos mudanças na forma como a sociedade lida com opressões e classes dominantes.

  • “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo” (José Saramago)

Voltando ao ponto inicial, de como as opressões estão incutidas na história do Brasil, ou seja, são estruturantes de nossa história, precisamos lembrar que o caminho para transformação é longo. Precisamos seguir com parceiras e parceiros, homens e mulheres, em casa e no trabalho. Vemos pequenos avanços de um lado, mas isso gera reações de outro. Na minha leitura dessa frase do Saramago, para esse caso específico, é não ter pressa no sentido de não nos desesperançarmos com a lentidão da mudança, mas, jamais, deixarmos de aceitar que essas mudanças são sim urgentes. E é por serem lentas e urgentes que devemos seguir firmes, sem perder tempo.

Vamos cuidar umas das outras, praticar a sororidade. Vamos cuidar de nós mesmas. Uma sociedade mais justa precisa de nós, mulheres, fortes (e isso não significa não sermos vulneráveis), firmes, conectadas, sendo generosas com a gente e com as outras. E uma sociedade mais justa precisa de pessoas parceiras, homens parceiros, lideranças parceiras. Abertas ao diálogo, entendendo que o conflito faz parte do processo e que tudo bem não saber o caminho: só não podemos desistir de construí-lo.

#resistênciaesororidade #compromissoeatitude

Sobre justiça de gênero

No último dia 30 de março participei de um painel sobre justiça de gênero na EDP São Paulo, empresa de energia de origem portuguesa. O painel aconteceu na quarta edição do evento Sustainability Talks, organizado para o público interno da empresa e, nesse mês, foi dedicado à equidade de gênero no ambiente de trabalho. No painel estávamos eu, a Adriana Carvalho, da ONU Mulheres, a Daniela Cachich, VP de Marketing da Pepsico, Guilherme Valadares, fundador e Diretor de Conteúdo do Papo de Homem e Miguel Setas, CEO da EDP, e a facilitação foi feita pela Fernanda Pires, Diretora de Gestão de Pessoas da EDP.

 

O que eu gostei MUITO:

 

  • discussão com pontos de vistas diversos e muito conteúdo – a conversa rendeu, pôde ser aprofundada e passamos do horário previsto 🙂
  • audiência bem mista, com muitos homens também – sim, muitas vezes eventos sobre gênero atraem quase só mulheres,
  • ver a preocupação genuína do Miguel Setas em promover essa discussão e mais, essa transformação, na cultura da empresa,
  • o ponto de vista de que o machismo não mata só mulheres, também mata homens. Logo, conversas sobre temas complexos nunca são tão simples como parece.

 

Esse ponto de vista foi bem construído no documentário Precisamos falar com os homens, produzido pela ONU Mulheres, Papo de Homem e outras parceiras fodas e confesso que me abriu outras perspectivas sobre como os homens são impactados pelo machismo. Eu costumava dizer que o machismo pode impactar homens negativamente, mas mata mulheres. E, de acordo com alguns cientistas sociais e antropólogos do filme, ele também mata homens – por toda a gama de comportamentos e atitudes esperados “do homem” na sociedade patriarcal.

 

Cada conversa dessas é mais um passo de construção coletiva de novas narrativas de sociedade. Uma sociedade que caiba homens e mulheres, em todos os espectros, sendo quem querem ser e respeitando as pessoas. Uma sociedade diversa e justa. Não sei exatamente qual é o caminho ou como é a chegada (se soubéssemos e não tivéssemos chegado ainda seríamos muito incompetentes, né?!), só que é preciso continuar e escolher boas companhias para a jornada – que é longa – de transformar padrões coletivos construídos ao longo de milhares de anos. Se você conhece projetos interessantes que estão construindo narrativas de uma sociedade justa e diversa, compartilha aqui nos comentários ou me manda um email. Vou adorar conhecer. 🙂

 

juntos

necessitamos de uma visão mais coletiva, mas continuamos construindo parâmetros individuais.
muitos dizem que necessitamos uma melhor educação. um melhor governo. pessoas mais bem preparadas.
o mercado de trabalho tem grandes demandas. conhecimentos específicos.
nada parece estar pronto. formações, capacitações, premiações, certificações: seduções.

necessitamos, sem dúvida, de instituições mais modernas. mas as que temos, nos representam.
ou representam nossos bisavós, nossos avós, nossos pais e o que eles foram capazes de construir.
talvez seja esse um dos conflitos de muitos indivíduos do século XXI: não nos reconhecemos naquelas instituições que deveriam nos representar. e, como meninos mimados, queremos outras pra já, agora, rápido. prontas.

mas nada está pronto. e talvez estejamos nos esquecendo que tudo que aqui está foi construído – não brotou por aqui de um dia para o outro.

necessitamos de uma sociedade melhor, eu sinto.
necessitamos de pessoas mais dotadas de propósitos, sonhos e desejos coletivos.
nunca necessitamos tanto de aprender a empatia, aprender a diversão, aprender a diversidade, aprender a inclusão.
e no entanto nas escolas nos ensinam provas (individuais), nos empregos nos ensinam bônus (individuais) e valores corporativos. em massa, só as demissões.

assim, nunca necessitamos tanto de nos reconhecer como educadores ativos, constantes. são tantas coisas para aprender, que precisaremos educadores por todas as partes: amigos, parentes, colegas. necessitamos uma sociedade que seja mais uma SOCIEDADE que um apanhado de pessoas construindo suas vidas individualmente, precisamos nos pôr nos lugares dos vários outros que vivem conosco, e precisamos também que outras pessoas se coloquem em nosso lugar, tão pequeno, mas tão significante em nosso âmbito de ação. precisamos de menos etiquetas, menos julgamentos e menos opiniões – velhas! – formadas sobre tudo.

no entanto, continuamos a proliferar velhos símbolos, velhas recompensas. velhas formas de viver, velhos modos de relacionamento, velhos jeitos de ensinar, de reconhecer, de vigiar e punir. seleções individuais. prêmios individuais. concursos por UM vencedor. como se na natureza fosse mesmo possível se chegar a algum lugar sozinho. como se UM vencedor fosse resolver sozinho os problemas que precisamos encarar juntos. nada está pronto.

não precisamos reproduzir o que não serve mais pela ilusória segurança de se ter algo pronto. quando vamos entender o nosso papel na construção dessa nova sociedade? uma que represente de fato o século vinte e um, com todos os recursos e conhecimentos que temos disponíveis? será que a empatia deverá ser vendida caro, cobrada em provas e com direito à certificação para entendermos o valor de ver – e viver com – o outro? de vivermos juntos?

O conflito e a formação de uma democracia, por Aimar Labaki

“Democracia não é paz, mas o debate cotidiano entre os diferentes.
É preciso aprender a se confrontar”

Aimar Labaki, dramaturgo, diretor e ensaísta, no debate ocorrido em 12/05/15, no teatro do Itaú Cultural, em São Paulo.

“A questão do negro no Brasil é igual a duas outras questões pra mim: primeiro, a questão dos desaparecidos e dos torturadores, isto é, a nossa verdade histórica que ainda está, de alguma forma, enterrada, e a ideia de que uma justiça possa vir a realmente servir pra todo mundo. É igual à questão da liberdade sexual, isto é, que a questão do gênero, a questão das opções sexuais sejam normalizadas, pelo menos do ponto de vista legal, e a vida vai fazer com que o óbvio se estabeleça, que cada um viva como quer. Por que estas três questões são importantes? Porque são as três questões que nos impedem de, de verdade, nos sentirmos parte de uma nação e de nos sentirmos parte de um Estado que nos representa em alguma medida. E eu não estou falando só da questão da representação política, que é uma crise pela qual passa o mundo inteiro e que não é uma crise só brasileira. Aqui foi piorado pelo fato de a ditadura ter acabado com uma ou duas gerações de pessoas que poderiam ter o conhecimento de como se mover publicamente e fez com que a nossa educação, nesse sentido, fosse atrasada tanto. Faz 30 anos que acabou a ditadura, mas o (José) Sarney só se aposentou no ano passado e ainda está indicando gente. Ainda tem militar que não obedece ao chefe do comando que é o presidente da República, quando o presidente da República manda entregar documentos que são do Estado, não são do Exército. Então, nós estamos há 30 anos construindo pela primeira vez uma democracia formal, mas nós não temos um espírito democrático, nós não temos um espírito de República. Nós ainda estamos tentando construir isso, e construir um aprendizado de como discutir em público. Porque democracia não é paz. Democracia é luta cotidiana, é debate cotidiano entre os diferentes. E nós temos medo do debate, nós temos medo do confronto. E é preciso aprender a se confrontar. Nesse sentido, essas três questões – a questão do negro, a questão dos torturados e da punição aos torturadores, e a questão da liberdade sexual – é que nos impedem, como diz o poeta, de conseguirmos transformar essa vergonha numa nação. Isso posto, eu acho que pra todas as três questões vale a preocupação permanente de compreender que essa democracia está em construção. E, nesse sentido, não me parece o caminho mais adequado você pedir ou você lutar pela supressão de qualquer representação que te incomode (…) Nesse caso, a representação também é uma forma de manutenção de uma visão de mundo que perpetua o racismo. E eu concordo com isso. Eu acho que essa visão tem que ser apagada, mas ela não pode ser apagada pela força, ela não pode ser apagada pelo silêncio.”

Retirado do post da Eliane Brum

O que ainda não sabemos sobre ensinar a diversidade

Em uma matéria sobre a crise de emprego, escrita em 2014 por Rukmini Banerjee e publicada na Forbes, a autora compartilha uma reflexão: uma vez que 60% dos empregadores dizem que os candidatos apresentam lacunas de habilidades interpessoais e de comunicação (as chamadas soft skills*), será que vivemos uma crise de emprego ou uma crise educacional?

Quando discutimos todos os problemas da atual educação, desde a Educação Infantil até o Ensino Superior e as Pós-Graduações, muito se fala sobre formato de aulas, relação professor-aluno, homeschooling (educação formal em casa) métodos de avaliação, uso de novas tecnologias, ensino por projetos, entre outros. Tudo isso é muito bem colocado e discutido, visto que ainda temos um modelo educacional industrial e unilateral.

O ponto que mais me preocupa, no entanto, é a formação que não estamos tendo para a diversidade. Ah, a diversidade. O fator que garante a nossa sobrevivência na natureza, enquanto seres homo sapiens que somos, é, mais do que uma característica à qual devemos nos atentar, um fator crucial para a nossa existência. Não sobrevivemos sem a diversidade, nem por um segundo. Não fosse a diversidade de gêneros, não haveríamos nós, os frutos da reprodução de nossos antecessores. Não fosse a diversidade de espécies o homo sapiens não existiria como uma das vertentes das famílias primatas. Não fosse a diversidade das moléculas, não haveria água, nem oxigênio, nem gás carbônico, nem alimentos. Dos seres  humanos? Nem sinal.

E, saindo um pouco dessa perspectiva homo sapiens no planeta Terra, peço a licença de citar o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella.

A Terra é um planetinha que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer. Veja como nós somos importantes….

Aliás, veja como nós temos razão de nos termos considerado na história o centro do universo. Tem gente que é tão humilde que acha que Deus fez tudo isso só para nós existirmos aqui. Isso é que é um Deus que entende da relação custo-benefício. Tem indivíduo que acha coisa pior, que Deus fez tudo isso só para esta pessoa existir. Com o dinheiro que carrega, com a cor da pele que tem, com a escola que freqüentou, com o sotaque que usa, com a religião que pratica.

(Mário Sérgio Cortella, Você sabe com quem está falando?, em Qual é a tua obra.)

Diante de toda essa amplitude e da diversidade de elementos existentes no mundo, nós, seres humanos, somos muito poucos (ainda que em sete bilhões) e somos muito mais parecidos do que queremos imaginar. Na verdade, somos muito mais parecidos até com outros mamíferos do que o senso comum poderia afirmar (seja sempre cauteloso ao que o senso comum diz!).

E ainda assim, gastamos boa parte de nosso curto tempo de vida reforçando diferenças – exatamente as que nos enriquecem como sociedade e como espécie – como grandes e intransponíveis barreiras para a convivência. Ouso dizer que um dos motivos da sociedade ser algo tão complexo está no fato dela conter tanta diversidade em seres biologicamente tão semelhantes, mas ainda pouco aptos para tirarem o máximo proveito dessa diversidade e de seu potencial colaborativo (falarei mais sobre isso aqui posteriormente).

Naturalmente, ou melhor, socialmente, quando falamos de diferenças e igualdade, no que diz a condições dignas de vida, é sempre bom lembrar o professor e pesquisador Boaventura Souza Santos:

Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.

Essa sua afirmação é um embasamento claro para as políticas afirmativas: ser iguais quando a diferença inferioriza, ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza. Ou seja, quando a diferença inferioriza, é preciso criarmos oportunidades para que os diferentes estejam no mesmo patamar, sem nenhuma inferiorização. E, quando a igualdade descaracteriza as nossas individualidades e os componentes que nos formam culturalmente, a diferença deve ser estimulada.

Assim, para quem compartilha o desejo de se viver em um mundo menos desigual no que diz respeito a oportunidades e condições básicas de vida, não podemos escapar do trabalho por uma sociedade que não só “aceite”, mas abrace a diversidade e saiba usá-la para o bem coletivo. Sim, isso pode soar bastante curioso, mas aceitar e reforçar a diversidade é essencial para se diminuir a desigualdade de condições de vida.

Hoje em dia, muitos – para não dizer quase todos – dos conteúdos relevantes para um estudante se alfabetizar ou se preparar para o vestibular, estão disponíveis online. Mas, na prática, uma pessoa precisa de muito mais do que isso para exercer plenamente suas potencialidades. E é no ambiente escolar e nos ambientes de convivência das crianças que esse aprendizado pode se dar de forma sistêmica, apesar de objetivamente estarem fora do currículo da maior parte das escolas. Nesse aspecto, de acordo com o psiquiatra chileno Claudio Naranjo em entrevista à Época, os pais podem exercer uma grande influência.

Muitos pais só querem que seus filhos sigam bem na escola e ganhem dinheiro. Acho que os pais podem começar a refletir sobre o fato de que a educação não pode se ocupar só do intelecto, mas deve formar pessoas mais solidárias, sensíveis ao outro, com o lado materno da natureza menos eclipsado pelo aspecto paterno violento e exigente. A Unesco define educar como ensinar a criança a ser. As Constituições dos países, em geral, asseguram a liberdade de expressão aos adultos, mas não falam das crianças. São elas que mais necessitam dessa liberdade para se desenvolver como pessoas sãs, capazes de saber o que sentem e de se expressar. Se os pais se derem conta disso, teremos uma grande ajuda. Eles têm muito poder de mudança.

Essa percepção e mudança de atitude vinda dos pais é de grande valia para o desenvolvimento de crianças e jovens. No entanto, para adultos que tiveram essa lacuna em casa, a situação não se torna melhor nos espaços de aprendizagem e socialização, uma vez que, como diz Banerjee em seu artigo da Forbes,

Habilidades como resolução de problemas, liderança, trabalho em equipe, empatia e inteligência social/emocional ainda estão sendo deixadas fora do currículo da maior parte das escolas, o que contribui para o ampliamento da lacuna de talentos (no mercado de trabalho).

Como seres gregários – que vivem em comunidade – que somos, saber abraçar e potencializar a diversidade talvez seja a habilidade mais sensível e mais crucial para que pessoas – e a sociedade, em última instância – sejam bem sucedidas nessa curiosa tarefa que é existir. Talvez esteja na hora de iniciarmos essa discussão em nossos círculos de convivência. Entre os movimentos que têm feito isso muito bem, destaco o Movimento Entusiasmo, que está pintando, bordando e poetizando com as crianças que frequentam a Escola Municipal de Educação Infantil Gabriel Prestes, no centro de São Paulo, para muito além dos limites da escola. Grupos que discutem e ensinam a Comunicação Não Violenta, como a Carol Nalon, da Tiê Coaching em seu curso Caminho para a Comunicação Autêntica, também são bons exemplos de como despertar e desenvolver habilidades de se entender e de se fazer entender nesse mundo respeitando a diversidade existente em nossos pares. Também gosto muito das ações que provocam a convivência da diversidade pela ocupação do espaço público, como A batata precisa de você, e daquelas que dão destaque a invisibilidades sociais como forma de incluí-las, como faz o Pimp my carroça.

Independente das atividades já existentes endereçadas ao desenvolvimento das habilidades interpessoais mais sensíveis das pessoas, o caminho é longo e ainda há muito a ser feito.  Por isso, que tal iniciar essa provocação entre seus amigos ou em seu local de trabalho?
*Sobre soft skills: em português, são as habilidades relacionadas à Inteligência Emocional das pessoas, que incluem relacionamento interpessoal, empatia, liderança, comunicabilidade, etc.

A diversidade…

Em sua coluna publicada no Estado de S. Paulo no dia 22/02/15, intitulada “A felicidade, que piada!”, Mario Vargas Llosa fala do caráter individual e privado da felicidade, colocando a impossibilidade de se falar de um país “feliz”. Ao falar do caso da Dinamarca, que segundo uma pesquisa realizada no mundo inteiro foi considerada o país mais feliz do planeta, Vargas Llosa coloca que a Dinamarca é, sim, “um dos países mais civilizados do mundo em razão do funcionamento exemplar da sua democracia”. Um país onde a distância entre os mais ricos e os mais pobres não é abissal, e onde há um empenho duplo em relação aos imigrantes: seja de integração dos imigrantes, seja de respeito aos seus hábitos e crenças.

E, falando de imigrantes, o autor nos recorda do último ataque terrorista ocorrido em Copenhague por um jovem de origem palestina, mas nascido e criado na Dinamarca. Tudo muito bem colocado e com bastante sentido, a meu ver, até o momento em que, num ímpeto de valorização regional no mais legítimo espírito “nós contra eles”, Vargas Llosa exalta o chamado Ocidente em detrimento do chamado Oriente.

“O Ocidente democrático e liberal, que deixou de considerar a mulher um ser inferior e um objeto nas mãos do homem, que separou a religião do Estado, que respeita a crítica e a dissidência e pratica a tolerância e a coexistência na diversidade (…).”

Muito bonito o desejo, mas ainda tão distante da realidade… Gostaria de viver nesse ocidente de Mario Vargas Llosa. Ainda que tenhamos avançado muito em nossas democracias, nos falta muito para praticamos a ‘coexistência na diversidade’. Basta ver o número de jovens negros e pobres assassinados todos os dias nas grandes cidades brasileiras, a forma como pessoas com deficiência física são recebidas e tratadas em ambientes públicos e de trabalho ou estudo, a agressividade com que se lida com quem pensa diferente, nasceu em condição social diferente e por aí vai.

A diversidade continua um desejo utópico, longínquo, o qual não podemos deixar de buscar: a coexistência na diversidade, até a diversidade ser parte de nosso ethos.