Ter sido sempre assim não é motivo pra continuar

É inegável que a discussão de justiça de gênero tem evoluído em nossa sociedade. Na medida em que essa discussão evolui, e mais mulheres estão no mercado de trabalho exigindo os seus direitos e oportunidades, novos desafios aparecem. As estruturas precisam se reacomodar quando esse tipo de processo acontece, então acho importante dizer que esse caminho não é simples e passa muito por aprendermos a lidar com menos certezas e mais conflitos. E quando digo aprendermos, falo com todas as pessoas, pois a promoção de uma sociedade justa é responsabilidade de todas as pessoas.

Nos últimos (quase) três anos tenho aprendido muito sobre essa trajetória dentro do ambiente organizacional, na ThoughtWorks Brasil. Pra quem não conhece, a ThoughtWorks é uma consultoria global de desenvolvimento de software customizado, presente no mercado há mais de 20 anos e no Brasil há nove. A empresa tem três pilares sobre os quais se baseia — importante falar disso e vocês verão por quê — , que são sustentabilidade financeira, excelência tecnológica (revolucionar o ecossistema de TI) e justiça social e econômica.

Todas as nossas ações sempre devem se equilibrar nesses três pilares, e com a diversidade não é diferente. Muita gente acha que só nos importamos com a diversidade por causa da perspectiva de justiça social e econômica. Estamos em uma época na qual a sociedade vive uma crise tamanha de identidade e de valores e há pessoas que começam a relegar importantes decisões e, principalmente, esperanças, à tecnologia. Nesse contexto, é impensável falarmos de excelência tecnológica sem falar de diversidade. Porque times diversos trazem mais pontos de vista para a mesa, refletem mais a sociedade como um todo (que no fim é a usuária final de software) e porque se não temos pontos de vista e lugares sociais diversos representados em um time de desenvolvimento de software, corremos um grande risco de desenvolver algoritmos que reproduzam as coisas como elas são (o famoso status quo), ou seja, comportamentos racistas e machistas, por exemplo. Logo, levamos sim a promoção da diversidade e de um ambiente justo de trabalho muito a sério para o coração do nosso negócio.

E, por isso, hoje vim compartilhar algumas reflexões e aprendizados desse caminho.

<texto da imagem: “Não se pode mudar aquilo em que não se acredita”. ao fundo, várias pessoas da ThoughtWorks em ação do Instituto ID_BR na ThoughtWorks Belo Horizonte, em 2017>
  • “Não se pode mudar aquilo em que não se acredita”

Li esse provérbio no mural do quarto da minha grande amiga-irmã de infância, Mariana Nemer, e custei a entender o seu real significado. Meu pai falava isso em outros termos durante minhas crises de adolescência: ter consciência de um problema é o primeiro passo para mudá-lo. Logo, até onde nos entendemos como pessoas que também reproduzem o machismo, simplesmente por sermos parte de uma sociedade patriarcal e termos bebido dessa fonte — ou sofrido suas rasteiras — muito mais do que gostaríamos na vida?

Importante: não se diz que mulheres são machistas, nós reproduzimos o machismo, uma vez que o aprendemos como forma de vida. Da mesma maneira, não dizemos que pessoas negras podem ser racistas, mas sim que podem reproduzir os padrões de opressão racistas aprendidos. Precisamos aceitar que vivemos num país profundamente marcado pelo patriarcado e pela escravidão, para entender que isso está em nossa história, em nossa estrutura. Ao não aceitarmos a realidade de opressões que vivemos e ao não nos vermos como reprodutoras de opressões, dificultamos bastante o processo de transformação social.

  • Precisamos entender nossas estruturas

Ainda sobre o ponto anterior: se não entendermos a nossa história, como país, demoraremos ainda mais a entender a profundidade e extensão do problema. No caso, o Brasil é um país com herança escravocrata e patriarcal.

“Na história da formação da sociedade brasileira, especialmente no período da colonização do Brasil, o modelo de família que se formou foi o modelopatriarcal.

O modelo patriarcal, como o próprio nome indica, caracteriza-se por ter como figura central o patriarca, ou seja, o “pai”, que é simultaneamente chefe do clã (dos parentes com laços de sangue) e administrador de toda a extensão econômica e de toda influência social que a família exerce.”

fonte: http://brasilescola.uol.com.br/historiab/familia-patriarcal-no-brasil.htm

Isso significa, inclusive, que a mulher construiu sua identidade sempre em relação ao homem, não como sujeito independente (e prometo compartilhar mais referências sobre esse assunto em breve).

  • Qual é o nosso lugar de falar?

Considerando a boa definição da Djamila Ribeiro em seu livro “O que é lugar de fala?”, creio que um bom exercício para todas nós é começar a entender qual é o nosso lugar de fala, como locus social. O meu é o lugar de uma mulher branca heterossexual cisgênero de classe média. Isso significa que eu posso entender o que é ser oprimida como uma mulher no mundo do trabalho, mas jamais entenderei o que é ser oprimida como uma mulher trans, uma mulher negra, uma mulher homossexual ou bissexual ou uma mulher pobre. Por mais que eu me esforce para me colocar em seus sapatos e ver o mundo sob seu ponto de vista, por mais que eu me entristeça e me indigne com as opressões que as manas sofrem, eu nunca saberei o que é ser naquela pele, naquele lugar. Isso não me impede de falar a favor da diversidade racial ou contra a transfobia, por exemplo. Mas me faz ter que redobrar a atenção ao fazê-lo e, principalmente, redobrar a minha atenção ao exercer a minha branquitude na sociedade, pois com certeza já oprimi muitas pessoas em minha trajetória, mesmo sem querer ou saber. Preciso olhar para a minha branquitude e a minha condição de cisgênero e entender o que significa ser quem sou em nossa sociedade.

  • Representatividade

Se ainda temos dúvidas sobre as reais condições de diversidade no mercado de trabalho, vale olharmos para o censo da população brasileira de 2010 e nos perguntar onde estão as 54% de pessoas negras e as 51.4% de mulheres da população brasileira no mercado formal de trabalho. Estão incluídas? Se sim, estão bem distribuídas nas hierarquias das empresas? Simplificando bastante, quantas mulheres e quantas pessoas negras estão em cargos de liderança das grandes empresas brasileiras? Porque será que isso acontece?

<texto da imagem: o quanto o nosso conteúdo se comunica com a maior parte da população brasileira? ao fundo, várias pessoas da ThoughtWorks em ação do Instituto ID_BR na ThoughtWorks Belo Horizonte, em 2017>
  • O quanto o conteúdo e as comunicações produzidas por cada empresa se comunicam de fato com a população brasileira, considerando a sua representatividade?

Falando em representatividade, quando falamos com o mercado, quando falamos com potenciais candidatas a trabalharem em alguma empresa, estamos de fato nos comunicando com todas as pessoas? Nossas comunicações trazem fotos de pessoas “bem sucedidas” que não sejam só brancas, que não sejam só homens, que não sejam só pessoas cisgênero? As histórias que contamos de produtos, de cultura organizacional e de clientes incluem as pessoas e buscam representar a diversidade existente na sociedade? Quem vocês chamam para dar uma palestra ou produzir um artigo em nome da empresa? Na ThoughtWorks, tivemos um processo interessante em nossas comunicações. Falávamos de nossas vagas assim:

“Buscamos desenvolvedores”

Aí começamos a falar assim:

“Buscamos desenvolvedoras/es”

Nas redes sociais isso gerou bastante elogios, mas, internamente, junto com os elogios vieram novas provocações: estávamos, ainda, falando apenas com quem se identifica como homem ou mulher. Então, começamos a pesquisar formas de sermos neutras de gênero em nossa linguagem. Nossas vagas hoje são divulgadas como:

“Buscamos pessoas desenvolvedoras”

E a Paula Ribas, editora de conteúdo na ThoughtWorks, produziu um textofalando mais sobre isso, para que outras pessoas entendam que quando falamos “todas” estamos nos referindo a todas as pessoas, não apenas às mulheres.

<texto da imagem: “ter sido sempre assim não é motivo pra continuar”. ao fundo, várias pessoas da ThoughtWorks em ação do Instituto ID_BR na ThoughtWorks Belo Horizonte, em 2017>
  • Ter sido sempre assim não é motivo pra continuar…

Escrevi esse verso há muitos anos e ele me toca tanto que me gerou uma poesia e uma tatuagem alguns anos depois. Já repararam o quanto a mulher, no ambiente corporativo, é “educada” para não gostar, desconfiar e até mesmo minar o desenvolvimento profissional de outras mulheres? Já ouvi muitas frases em minha vida de consultora autônoma, como “mulher é tudo mimimi”, “trabalhar com mulheres é muito difícil”, “mulheres não se apóiam”. Eu ficava perguntando às mulheres que diziam isso se elas eram mimimi ou difíceis — ou, pelo menos, mais difíceis que um homem. Essa é a lógica de um universo corporativo que sempre foi dominado por homens e que provavelmente foi construindo essas historinhas para que as próprias mulheres se sentissem inseguras de estar em lugares de poder e desconfiadas quando outras mulheres estão. Hoje posso dizer com muito orgulho que trabalho majoritariamente com mulheres (a equipe de liderança estratégica da ThoughtWorks Brasil tem 60% de mulheres e a equipe de marketing é composta por 100% de mulheres hoje) e vejo como é forte e engrandecedor quando praticamos a sororidade e nos vemos com um olhar de potência, de carinho e generosidade. Vejo muitos potenciais despontarem, em mim e na equipe que trabalha comigo, vejo colaborações lindas e, principalmente, vejo um negócio que cresce de tamanho no Brasil (em faturamento e número de pessoas) ano após ano. Logo, vamos olhar para as histórias que se contam e questionar: elas fazem mesmo sentido? O que você alimenta no mundo quando repete que “mulheres são difíceis”?

  • Como se adaptar a uma época de transição, com mais questionamentos que certezas?

O exemplo acima é apenas um dos espaços onde devemos praticar a diversidade. E, considerando que esse é um caminho longo e para toda a vida, é necessário entender que estamos em um momento de transição na sociedade, em que preciso ter mais questionamentos que certezas sobre narrativas tidas como verdades absolutas, ao mesmo tempo em que não posso me omitir de situações que considero injustas. Pra muita coisa não há resposta certa, mas pra muitas há um posicionamento a se tomar. E, para os que não têm resposta, mas geram incômodo e exclusão, é preciso estarmos atentas e abertas para construirmos juntas uma solução melhor de narrativa social. Lembrando que uma narrativa social se constrói a todo momento: ao compartilharmos uma mensagem num grupo de whatsapp ou um post no facebook, ao formarmos uma equipe, ao darmos um feedback… Narrativa social não é só a escrita num livro de história ou sociologia. E me preocupa bastante qual narrativa social se constrói quando se pensa que não se está construindo nada — como se fosse possível ser neutra nessa sociedade.

  • Precisamos estar abertas para nos transformar…

Para isso tudo, precisamos estar muito abertas para nos transformar. Questionar paradigmas e revisitar crenças, inclusive a de que podemos aguentar tanta injustiça pois o mundo não vai mudar mesmo. Realmente, se não agirmos para isso, demoraremos ainda mais para vermos mudanças na forma como a sociedade lida com opressões e classes dominantes.

  • “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo” (José Saramago)

Voltando ao ponto inicial, de como as opressões estão incutidas na história do Brasil, ou seja, são estruturantes de nossa história, precisamos lembrar que o caminho para transformação é longo. Precisamos seguir com parceiras e parceiros, homens e mulheres, em casa e no trabalho. Vemos pequenos avanços de um lado, mas isso gera reações de outro. Na minha leitura dessa frase do Saramago, para esse caso específico, é não ter pressa no sentido de não nos desesperançarmos com a lentidão da mudança, mas, jamais, deixarmos de aceitar que essas mudanças são sim urgentes. E é por serem lentas e urgentes que devemos seguir firmes, sem perder tempo.

Vamos cuidar umas das outras, praticar a sororidade. Vamos cuidar de nós mesmas. Uma sociedade mais justa precisa de nós, mulheres, fortes (e isso não significa não sermos vulneráveis), firmes, conectadas, sendo generosas com a gente e com as outras. E uma sociedade mais justa precisa de pessoas parceiras, homens parceiros, lideranças parceiras. Abertas ao diálogo, entendendo que o conflito faz parte do processo e que tudo bem não saber o caminho: só não podemos desistir de construí-lo.

#resistênciaesororidade #compromissoeatitude

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