Arquivo da tag: esse impeachment é golpe

Não!

Um discurso perigoso ronda nossos tempos.
Esgueira-se pelos áridos ares de uma terra cansada,
de pessoas confusas pelo cansaço. (#cansadadeserenganada)

O mesmo discurso contém a mesma narrativa,
nas vozes de pessoas muito mais parecidas do que destoantes.

“Não é que eu quis que tivéssemos chegado aonde chegamos,
mas vamos concordar, é o que temos para hoje”.*

O discurso traz uma aceitação, quase forçada, da atual situação.
[Mesmo que seja uma situação inaceitável, desde muito tempo atrás:

“A fome frente a frente à abastança e o desemprego no mundo são imoralidades e não fatalidades como o reacionarismo apregoa com ares de quem sofre por nada poder fazer” (Paulo Freire)]

Ao mesmo tempo,
simplifica questões complexas
e individualiza problemas sistêmicos.

“Mãos à obra, vamos mudar!!!”*
(pois é fácil assim, só não mudamos até hoje porque não quisemos)

E além disso, é o discurso de vozes que se encontram numa posição confortável até que cheguem dias melhores.

“Portanto sem traumas, vamos buscar dias melhores”*

Como senão bastasse tudo isso, tudo isso, TUDO ISSO, nesses discursos se repetem táticas históricas de dominação e opressão.

“Desculpas mas não vou entrar no mérito, só gostaria de lembrar que…**” (ou seja, não vou entrar no mérito, mas você vai ouvir a minha opinião sobre o tema e ponto final, sem mais discussões!).

O mais curioso é que até agora só vi pessoas muito muito brancas, muito muito privilegiadas usando esse discurso. Porque no privilégio, a pressa é bem mais devagar. Fala-se de objetivos comuns, fala-se de “meu partido é meu país”, como se pudéssemos ignorar que algumas escolhas excluem outras, não há entrelinhas. Não há entrelinhas na falta de diversidade, na falta de representatividade, na omissão, na falta de direitos, na violência, muito menos naquela que se justifica

“quando a outra parte não está disposta ao consenso”.*

Porque a violência não se justifica. E no entanto, já somos tão violentadas/os. Na lama, nas urnas, nas Câmaras, nas propinas, na mídia, nos oligopólios, na merenda. E porque o consenso está longe de ser bom que nem para os lados oprimidos. Se o consenso é a única opção para não haver violência, a violência já está posta e não há debate.

Para nós, mulheres, não há tempo para esperar, nem mais um mês, nem mais um dia, sem fazer parte. Não é mais tempo de termos uma “representante do mundo feminino” no governo para fazer fita. Não é mais tempo de estarmos qualificando ninguém, nenhuma pessoa que seja, como “bela, recatada e do lar”. A população negra do Brasil não pode esperar nem mais um segundo para ter paz, para andar na rua sem medo de ser assassinada pela Polícia, para não ter suas oportunidades determinadas antes mesmo de nascer. Não há tempo, não há paz, não há respeito.

NÃO. Diremos não ao esforços de quem quer minimizar o golpe político que estamos vivendo. E diremos não com tranquilidade, pois não é de hoje que há um discurso tentando dizer que não há o que se fazer, enquanto o sistema continua sendo reproduzido para o benefício de muitos poucos.

“Pois é como algo natural ou quase natural que a ideologia neoliberal se esforça por nos fazer entender a globalização, e não como uma produção histórica. O discurso da globalização que fala em ética esconde, porém, que a sua é a ética do mercado e não a ética universal do ser humano, pela qual devemos lutar bravamente se optamos, na verdade, por um mundo de gente. O discurso da globalização astutamente oculta ou nela busca penumbra a reedição intensificada ao máximo, mesmo que modificada, da medonha malvadez com que o capitalismo aparece na história. O discurso ideológico da globalização procura disfarçar que ela vem reabastecendo a riqueza de uns poucos e verticalizando a pobreza e a miséria de milhões.” (Paulo Freire)

Diremos não a esse discurso, e diremos não repetidas vezes. Vamos repetir até que não seja mais possível ignorar. Porque é preciso se repetir muitas coisas óbvias até que se tornem verdade e uma delas é que uma sociedade justa é possível. É possível, mas têm sido obstruída até hoje pela manutenção de sistemas de dominação que herdamos de nossos colonizadores (e vai saber de quem eles herdaram). E sistemas de dominação são, em si, excludentes. Precisamos de novas narrativas para essa vida social justa, inclusiva e diversa. O discurso que se conforma com o contrário não nos representa e não há mais tempo para esperar.

—-

 

*Trechos retirados de discursos conformistas proliferados nas redes sociais sobre o golpe do Temer e de debates recentes sobre o movimento de estudantes secundaristas em São Paulo.
**Pra quem achou que essa frase não acaba bem, ela não acaba mesmo. Continua assim: “…dos 54 milhões de votos mais da metade foi do grupo que abraçou o processo de impthiment legitimamente constitucional e rito do supremo”. Exatamente assim.
***Os trechos citados de Paulo Freire são da Pedagogia da Autonomia.